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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Costumes da Bíblia - O trabalho dos pastores



Atividade fundamental para povos antigos e atuais, o pastoreio virou sinônimo de dedicar a vida a orientar os seguidores de Jesus





De tão importante para os tempos bíblicos, o ofício de pastor de ovelhas e outros animais emprestou, com o tempo, seu nome ao sacerdócio, ao ato de uma pessoa liderar e orientar outras na fé, zelando por elas e mostrando-lhes os caminhos dos preceitos de Deus. Um rebanho à solta pode ir para lugares perigosos, ser atacado a qualquer momento por predadores, sem alguém que os defenda, que zele por seu crescimento saudável, que garanta boas pastagens, que evite que sejam roubados. Os animais dependem dele para sua existência. Poderiam ser selvagens e “se virar” bem, mas ninguém nega que é bem mais seguro ter a guarda de um pastor.

Também não raro, um pastor tornava-se líder de sua tribo. A própria Bíblia conta a história de valorosos pastores. Sim, pastores de gado, como os que visitaram o recém-nascido Jesus e espalharam a Boa Nova. Pastores de homens, como Paulo, que conduziu muita gente ao Evangelho. E pastores dos dois tipos, que, em algum ponto de suas vidas, estiveram entre as cabras e ovelhas, para depois tornarem-se valorosos líderes, Na época da Bíblia e nos dias atuais, em vários pontos do mundo, um pastor de animais começa seu trabalho cedo, muitas vezes ainda criança. Desde a infância sente o peso da responsabilidade, pois muitas vezes está em suas mãos o sustento da família ou até da comunidade. Era comum em tempos bíblicos que famílias mais pobres, que não podiam contratar pastores, incumbissem do serviço um filho (caso de Davi, como na foto acima, da minissérie "Rei Davi", da Record).


 espirituais de seus semelhantes. Caso de Abraão, senhor experiente de muitos rebanhos, depois patriarca de muitos patriarcas. De Moisés, que após fugir do ambiente palaciano egípcio apascentava o rebanho do sogro, para mais tarde conduzir todo o seu povo rumo à Terra Prometida. E de Davi, cuja experiência com a funda para afugentar predadores que atacavam suas ovelhas serviu para matar o gigante Golias, para mais tarde tornar-se um dos maiores reis da história.

Patrimônio vivo
Quando Abraão saiu de Ur segundo ordem de Deus, converteu todo o seu patrimônio em gado. Desse modo, poderia transportá-lo na vida seminômade que se iniciava (ilustração ao lado). Ovelhas, cabras, bois e muares eram um tesouro que andava com as próprias pernas, garantia carne e leite para alimento, peles para roupas e tendas, ossos e chifres para a confecção de utensílios, além do valor comercial. Vale também citar os sacrifícios dos animais para Deus, tão importantes naqueles tempos.

Quando o povo deixou de ser nômade, ainda assim os pastores eram necessários. Continuava-se a precisar de tudo que era aproveitado do rebanho. Em toda a Bíblia estão os chofares (trombetas), vasilhas (como a que continha o óleo para unção) e até adornos, feitos de chifres. Tendas e agasalhos eram feitos de peles e lã (sacos eram feitos com pelos de cabra tecidos, assim como algumas cortinas do Tabernáculo). Carne e leite continuam até hoje como parte essencial da subsistência. Alguns povos os obtêm de rebanhos pastoreados à moda antiga (como os atuais beduínos), sem aparato tecnológico.

Na tradução bíblica, a mesma palavra designou ovelhas e cabras. Podia significar, respectivamente, um ovino, um caprino ou ambos. As cabras se dão melhor com terrenos mais acidentados, enquanto ovelhas preferem os mais planos. Essas preferem as pastagens do solo (grama e capim), enquanto aquelas também se alimentam de arbustos, às vezes ajudadas pelos pastores, que baixavam os galhos mais altos com seu cajado.

O leite de cabra era utilizado pela versatilidade. O animal é bem menor e mais fácil de manter que uma vaca. Uma cabra saudável pode dar cerca de 3 litros diários de um leite muito saudável. Com ele, fazia-se o leben (um tipo de coalhada) e queijos muito nutritivos para crianças e adultos. Também era comum que uma cabra fosse deixada com a família, enquanto as outras iam com o pastor para o campo. Além de ela fornecer o leite em casa, muitas vezes ganhava o carinho dos moradores do lar e virava um animal de estimação.

Quando o povo começou a moradia fixa, era comum que a comunidade optasse por um pastor que levava o rebanho de todos para campos distantes, já que não havia espaço e alimento suficientes entre as casas e vias.

Tarefas
Na primavera, após o período de chuvas, havia bastante pastagem verde. Depois das colheitas, o que sobrava era deixado para que os animais comessem. Quando essa opção de alimento acabava, era a vez de rumar pelos campos atrás de ervas secas. A presença de pasto fresco também podia ser sinal de água retida após as chuvas, permitindo que o rebanho ficasse por mais tempo em determinado lugar (as “águas de descanso” e “pastos verdejantes” citados no famoso Salmo 23 de Davi, que entendia muito bem do assunto). Quando essa água acabava, a de poços era usada.


Os perigos para o rebanho não eram poucos. Por isso, a proteção era constante. Em vários livros da Bíblia (como Juízes, 2 Reis e Amós) citam predadores naturais como leões e ursos. Também eram comuns hienas e chacais. A velha figura dos lobos devorando cordeiros já era notória. Os pastores arriscavam suas vidas para afugentar ou matar os animais selvagens. Eles tinham de pagar ao dono pela perda ou roubo de um animal, conforme o caso, e tinham de provar a causa da ausência dele (Êxodo 22.10-15).

Era comum que deixassem as ovelhas em um lugar seguro para procurar uma desgarrada. Caso alguma se machucasse, ficasse doente ou mesmo cansada demais, o pastor a carregava nos ombros (como Jesus descreve em Lucas 15.3-6).

As armas para proteger o rebanho eram simples e eficazes. O bastão de madeira era pesado, e podia ter pregos nas pontas. A funda, bem usada, afugentava ou matava predadores, ou mesmo era usada para, de forma mais fraca, advertir ovelhas que se desgarrassem. Uma grande vara (cajado), geralmente com uma curva na extremidade, era usada tanto na condução quanto para repreender alguns dos componentes mais rebeldes do gado. Também ajudava o pastor a se escorar em terrenos difíceis. A ponta do cajado, mergulhada em tinta, servia para marcar uma em cada dez ovelhas, que era dada em dízimo (Levíticos 27.31-33).


Geralmente, o pastor carregava uma bolsa, o alforje, no qual levava alimentos, pequenos utensílios e até pedras para funda. Alguns faziam versões menores da bolsa só para essa munição. Dentro do alforje poderia estar uma pequena flauta de bambu, um pequeno alívio na solidão do pastoreio, ou para alegrar festas entre o povo. Davi tocava muito bem uma harpa, que o distraía e apascentava o rebanho (ilustração acima). O costume de tocar o instrumento o acompanhou em seus dias de rei.

À noite, era comum que o pastor reunisse o rebanho em um cercado de pedras empilhadas (chamado redil, na foto abaixo), com plantas espinhosas no topo, com uma abertura na frente, onde ele se deitava, caso adormecesse, formando uma espécie de portão vivo, que sentiria se algum animal quisesse sair. Cavernas também eram usadas, e um muro de pedras era feito na entrada, com a mesma abertura. Jacó descreve a vida difícil de pastor, à mercê de frio, fome e a impossibilidade de dormir em algumas noites (Gênesis 31.40). Alguns levavam pequenas tendas, fáceis de transportar e armar (Cântico 1.8).



O cruzamento e a assistência nos partos geralmente eram coordenados pelo pastor. Alguns também cuidavam do trabalho de tosquiar as ovelhas.

De volta aos povoados, o rebanho era depositado em currais bem arejados, com uma parte coberta e outra ao ar livre, onde os animais ficavam, conforme o clima.

Era comum que cachorros fossem usados no trabalho. Cães pastores ainda hoje são parceiros na atividade, mesmo em algumas fazendas mais modernas, geralmente animais confiáveis e eficientes, leais ao dono. Quase sempre ficam depois dos rebanhos durante as viagens, fazendo com que os animais desgarrados voltem ao grupo, cercando-os.

Intimidade
Com o tempo, pastores e rebanho se entrosavam. O homem passava a conhecer o temperamento de alguns animais, que criavam um laço de obediência a ele. Conhecer um a um lhes permitia que fossem devolvidos aos donos certos, quando era o caso dos pastores que tomavam conta de rebanhos coletivos. “Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim”, disse o próprio Jesus em João 10.14. Ele mesmo, carpinteiro, também conhecia a fundo o trabalho do pastoreio e seus segredos, que muito usava como exemplos em seus ensinamentos.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Costumes da Bíblia - As batalhas de Josué


Após chegar à Terra Prometida, a bênção de Deus não foi dada instantaneamente: o povo teve que se esforçar muito para conquistar o território




Após a morte de Moisés, Josué foi incumbido por Deus de liderar Seu povo pelo deserto rumo à Terra Prometida, então chamada Canaã. Por muitas vezes, embora o próprio profeta pudesse duvidar, o Senhor o incentivava a ser forte e corajoso, pois havia lhe dado condições de vencer o histórico desafio (Josué 1:6-9).

A segunda separação das águas

Assim que foi realizada a famosa travessia do Jordão e os hebreus pisaram pela primeira vez no torrão prometido pelo Pai, eles perceberam que a região era habitada por outros povos. Já haviam chegado ao que Deus lhes prometera,mas teriam que lutar para tomar posse. Os moradores originais ficavam em cidades independentes e fortemente guarnecidas por muralhas. Nenhum deles estava, obviamente, disposto a abrir mão de suas terras e posses. Josué foi uma figura chave na conquista desses pequenos reinos, numa interação entre a dependência de Deus e astutas estratégias de guerra.

O episódio em que as águas do Mar Vermelho se afastaram para que os hebreus passassem sob a liderança de Moisés, fugindo dos egípcios, é bastante conhecido. Mas houve outra separação de águas: a já citada travessia do Jordão. Na ocasião, o curso d’água estava em um de seus mais caudalosos períodos, pois acabara de receber as águas do degelo do monte Hermon. Quando a Arca da Aliança passou, antes do exército de Josué, o rio foi milagrosamente represado, até que o precioso baú chegasse à outra margem em segurança (Josué 3:1-4:24).

A volta da circuncisão

Durante a peregrinação de 40 anos pelo deserto, a circuncisão foi um pouco negligenciada. Em Gilgal, Josué determinou que o procedimento fosse retomado com rigor, no sentido de reafirmar a aliança dos israelitas com Deus (Josué 5.1-12).

A queda das muralhas

Uma das cidades mais antigas do planeta,Jericó era o ponto de controle da estrada que atravessava a área central canaanita. Era, portanto, de vital importância que a urbe fosse tomada, mas suas imponentes e aparentemente intransponíveis muralhas eram um empecilho. Quando fazia o reconhecimento do terreno, Josué foi visitado por um anjo guerreiro que lhe lembrou de que tal batalha não era do líder hebreu, mas de Deus (Josué 5:13-15).

A estratégia foi incomum: as muralhas caíram após o exército de Josué circundar a cidade ininterruptamente durante 7 dias, em marcha de louvor a Deus, ao som de trombetas (Josué 8:1-29). Com a ruptura do muro (ilustração ao lado), os israelitas entraram e conquistaram.

O pecado derruba Israel
Em Josué 7:1-5, vemos que o hebreu Acã caiu em tentação e pegou um pouco do espólio de Jericó (as riquezas saqueadas dos habitantes originais). Logo depois, quando o exército israelita tentou conquistar a cidade de Ai, perdeu humilhantemente de seus moradores. A derrota se deu devido ao pecado do roubo dos espólios, que pertenciam à casa de Deus. Josué prostrou-se diante do Senhor, pedindo perdão para seu povo, que foi concedido. Ai foi conquistada após várias batalhas e emboscadas (como mostra Josué 8). O povo seguiu rumo a Gibeão.

Renovada a aliança
No monte Ebal, Josué construiu um altar e renovou a aliança entre Israel e Deus (Josué 8: 30-35). Descendo para Gibeão, os gibeonitas tentaram um acordo de paz, mas foram condenados a trabalhos forçados (Josué 9). O exército de Deus teve de defender a cidade dos ataques de outros reinos de Canaã.

A porção sul canaanita foi conquistada cidade por cidade, e Israel passou a ter o controle da região (Josué 10).

A conquista do Norte
Canaã estava dividida em duas partes: os reinos do sul, já dominados por Israel, e o do norte. A importante cidade nortista de Hazor foi conquistada por Josué e, a partir dela, toda a área.
Cerca de 30 anos após a travessia do Jordão, Canaã era toda dos hebreus. Todavia, alguns bolsões de resistência permaneceram em algumas áreas.

A morte do honrado líder
Siquém foi o último ponto da longa viagem de Josué na liderança de seu povo. Já em avançada idade, ele renovou novamente a aliança de seu povo, que teimava no pecado, com Deus (Josué 24).

O líder sucessor de Moisés teve vida longa, morrendo com 110 anos, enterrado na cidade – onde até hoje seu túmulo é visitado.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Costumes da Bíblia - Os Herodes



Família não judia governou Israel para os romanos




Em 40 antes de Cristo (a.C.), o Império Romano dominava Israel e determinou como seus governantes os membros de uma família não judia, os Herodes. Era normal, como indica o fato, que o nome de um rei também fosse dado a seu sucessor.

Vários membros da família aparecem na Bíblia, sempre se opondo à fé cristã.Originários da Idumeia, ao sul do Mar Morto(também chamada Edom, fundada por Esaú, filho de Isaque e irmão de Jacó), os Herodes não recebiam grande simpatia de Israel, pois não eram judeus.

Herodes, o Grande (ilustração acima), reinou de 40 a 4 a.C.. Construiu muitas edificações importantes em Jerusalém, assim como fez obras de urbanização. Era ele que governava na época em que Jesus nasceu (Mateus 2), perseguindo sua família. Foi quem ordenou a reconstrução do Templo de Salomão para agradar aos judeus e impressionar Roma – a obra foi iniciada em 20 a.C. e terminada somente em 64 depois de Cristo (d.C.), muito após a morte do governante.

Seu sucessor foi Herodes Arquelau, o menos estimado entre todos da família pelo povo judeu. Governou a Judeia, a Idumeia e a Samaria de 4 a.C. a 6 d.C. – ocupava o trono quando da volta de Maria, José e Jesus do Egito (Mateus 2: 19-23). Por tanta crueldade, Roma o substituiu por um procurador, temendo revoltas.

Herodes Antipas (ilustração ao lado) governou a Galileia e a Pereia de 4 a.C. a 39 d.C.. Foi ele quem ordenou a morte de João Batista (Mateus 14:1-12) e tentou matar Jesus (Lucas 13:31-32), assim como esteve envolvido no julgamento do Messias (Lucas 23:6-12).

Herodes Filipe governou Traconites de 4 a.C. a 34 d.C., o reconstrutor de Cesareia de Filipe e de Batsaida. Comparado aos outros Herodes que goverrnavam em nome do Império Romano, ganhou mais aprovação do povo judeu.

Herodes Aristóbulo, filho de Herodes, o Grande, não é citado na Bíblia. Cresceu em Roma e, voltando a Jerusalém, foi acusado pelo Império de tramar contra seu poderio na região, executado por traição.

Herodes Agripa I foi rei da Judeia do ano 37 ao 44.Ordenou a execução de Tiago e a prisão de Pedro.Segundo Atos 12:1-23, foi morto por um anjo.

Foi sucedido por seu filho, Herodes Agripa II, que reurbanizou Cesareia de Filipe e a rebatizou como Neronias, em homenagem ao imperador Nero. Concedeu uma audiência ao apóstolo Paulo de Tarso (Atos 25:13 - 26:32).

Todos esses reis da família eram apoiados pelos chamados “herodianos”, citados na Bíblia nosEvangelhos de Marcos e Mateus. Simpatizantes de Roma, aliaram-se aos fariseus em oposição a Jesus em seu ministério na Terra.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Costumes da Bíblia - Os quatro Evangelhos


Os escritos que trazem as Boas Novas têm estilos diferentes sobre os mesmos fatos


Embora o termo “Evangelho” seja hoje também seja usado para falar dos livros da Bíblia em geral, normalmente a palavra se referia aos de Mateus, Marcos, Lucas e João. São eles que relatam a vida, o ministério, a morte e a ressurreição de Jesus.

A palavra vem do grego evangelion (boas notícias, boas novas). Embora hoje seu sentido seja de cunho sagrado, antigamente era de uso secular. Quando os governantes gregos tinham boas notícias para o povo, mandava mensageiros para comunicá-las pelas cidades. O portador das boas nova chegava a um lugar público e gritava “EvangelionEvangelion!”, o que atraía muitas pessoas, que por sua vez transmitiam a mensagem aos familiares e amigos. Os cristãos começaram a usar o mesmo artifício para divulgar a Salvação – daí o termo “evangelizar”.

Os Evangelhos foram registrados na história em etapas. Logo após a ressurreição de Cristo, as boas novas foram espalhadas no eficiente, bom e velho estilo do “boca a boca”. Hoje, essa forma de comunicação pode parecer ineficaz, mas na época, valia muito: os judeus eram ensinados desde cedo na arte da memorização das informações transmitidas oralmente. Jesus mesmo era um verdadeiro mestre nisso, e por isso usava bastante imagens e ilustrações – as parábolas –, o que tornavam os ensinamentos de mais fácil lembrança.

Como a história do povo judeu – mesmo após a conversão de muitos deles ao cristianismo – era repleta de conflitos que ameaçavam sua existência, foi necessário escrever a história de Jesus para preservá-la mais eficientemente, tendo em vista as gerações futuras. Foram escritos os Evangelhos.

Estilos

Mateus, Marcos e Lucas partiram dos mesmos fatos para escrever seus Evangelhos, os três crendo em Jesus como o Salvador. Por isso, seus livros da Bíblia são conhecidos como Evangelhos "Sinóticos", palavra oriunda do grego, com a ideia de “do mesmo ponto de vista”. João escreve com uma visão um pouco diferente deles.



Segundo estudiosos, Marcos escreveu o primeiro Evangelho, que serviu de base para Mateus e Lucas, que adicionaram alguns dados.

Mateus era um dos 12 discípulos originais de Jesus e, por isso, testemunhou Seu lado humano, como o Deus que se fez carne agia no dia a dia. Relatou os ensinos de Cristo em blocos, numa forma mais didática. Como contou rapidamente o nascimento do Messias e resumiu sua origem eficientemente, foi colocado antes dos outros na Bíblia. Mais detalhes mostrados em Lucas sobre o nascimento, escritos mais tarde, são repetidos para garantir a veracidade, e como revisão. Visava como público os cristãos que surgiram naqueles tempos.

Marcos, também discípulo, foi assistente de Pedro em seu ministério. Usava uma linguagem mais concisa, com foco na ação, escrito no grego mais simples possível, para garantir maior alcance. Fala muito dos milagres do Messias, dos acertos e erros dos discípulos. Tinha como público os gentios.
Lucas, um gentio convertido, viajou com Paulo em suas expedições missionárias. Também queria como público os demais gentios. Por ser médico, tinha um texto mais focado em detalhes minuciosos e com um estilo até investigativo. Mostrava muito o cuidado do messias com os oprimidos, sua preocupação social.

João, que escreveu seu Evangelho cerca de 2 a 3 décadas mais tarde que os anteriores, também era um dos 12 apóstolos originais. Sua escrita já era mais prolixa, com ,longos ensinamentos e até transcrições dos grandes discursos. Seu “público-alvo” eram tanto judeus quanto gentios.

sábado, 3 de novembro de 2012

Costumes da Bíblia - A sabedoria no dia a dia



Nos tempos bíblicos, como hoje, ser sábio era entender os preceitos de Deus e aplicá-los na prática, em todos os aspectos do cotidiano





Na época de Salomão, houve grande incentivo social a atividades intelectuais e culturais. O sucessor de Davi preparava terreno para que a inteligência dos súditos fosse desenvolvida, para que melhor entendessem não só o que já havia sido escrito para a Bíblia, quanto o que estava por aparecer. Foi nessa época que ele mesmo escreveu alguns livros da Palavra, e outros o seguiram no que foram chamados os “livros sapienciais” das Escrituras (Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cânticos).

Com o que ensina, a Bíblia mostra que sabedoria não é o simples acúmulo de informações, como alguns podem pensar. É, na verdade, conhecer melhor a Deus, fazendo com que isso seja o norte para todos os aspectos da vida. Isso requer o lado intelectual, de entender a verdade, em conjunto com o moral, de vivê-la, e com o prático, de aplicá-la.
Pensamento, compromisso e ação, juntos.Eles são a “parte filosófica” da Bíblia, pois tratam de grandes e triviais questões que dizem respeito à qualidade de vida dos verdadeiros seguidores de Deus até hoje. Em Jó, por exemplo, está em pauta o sofrimento e a perseverança. Conselhos para uma vida melhor estão nas páginas de Provérbios. Eclesiastes fala do sentido da vida. O amor é protagonista de Cânticos.



Paciência e busca

Jó é um livro deveras interessante. Mostra um homem privado de tudo que definia sua vida, caindo num poço aparentemente interminável de desgraças. Mesmo nesse caminho rumo ao fundo, ao invés de ele se entregar, como alguns o aconselharam, ele usa o impulso da queda a seu favor: tenta entender o que lhe aconteceu e o motivo. Amigos tentam explicar isso a ele, mas com pontos de vista meramente humanos (ilustração principal, no alto da página). Jó percebe que buscava a Deus por meio de palavras de conforto e explicações somente especulativas, quando percebeu que bastava se sujeitar à presença do Pai, com Seu poder e Sua justiça, e confiar nEle. Entendeu aquela velha definição que ouvimos quando nos ensinam sobre o paciente homem privado de tudo: tinha contato com Deus só de ouvir falar dEle, para passar a conhecê-Lo de verdade convivendo com Ele.

O verdadeiro sentido

Eclesiastes é ainda uma grande interrogação de muitos leitores. Começa mostrando que as coisas não têm um sentido aparente, a vida é uma eterna correria sem significado. Porém, faz assim somente para instigar o fiel a entender que não adianta procurar ter o controle absoluto de tudo, pois ele pertence a Deus, o verdadeiro sentido da vida é servi-Lo. Resumo: obedecê-Lo.

“De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem.”
Eclesiastes 12:13

Conselhos

Provérbios reúne curtos conselhos baseados, em sua maioria, em aspectos do cotidiano bíblico, que nos servem até hoje. Exortava o fiel a ser um filho honrado de Deus, íntegro em todos os sentidos.

“Balança enganosa é abominação para o SENHOR, mas o peso justo é o seu prazer.”
 Provérbios 11:1

Amor recíproco

Cânticos mostra uma vertente bem interessante de uma pessoa sábia: o amor. Chega mesmo a falar dele em seu lado físico – nunca vulgarmente. As referências ao mundo natural para mostrar o mundo espiritual, no que é interpretado como a relação de amor entre Deus e seu povo – bilateralmente.

Em suma, a verdadeira sabedoria consistia, dos tempos bíblicos até hoje, no temor ao Senhor não somente em belos discursos e numa aparência íntegra, mas numa forma inteligente de viver a fé todos os dias de nossas vidas, e em todos os aspectos – trabalho, amor, compromisso, honestidade, família e muitos outros. E “temor” aqui não tem o sentido negativo de medo, mas de respeito salutar pelo Pai, de acordo com Seus preceitos.

sábado, 27 de outubro de 2012

Costumes da Bíblia - As crianças



A vida dos pequenos filhos de Deus do Antigo ao Novo Testamento




O que significava ser uma criança nos tempos bíblicos?

Eram tempos difíceis, de muita privação, guerras constantes e acontecimentos que tinham nos pequenos suas principais vítimas. Entretanto, como sempre, crianças brincavam e encantavam a todos, embora participassem mais ativamente das tarefas familiares.

Para a Lei da época do Antigo testamento, a procriação era quase uma obrigação. Era uma época bem diferente da de hoje, em que muitas cidades e países têm excesso populacional. Naqueles tempos, o povo judeu estava se expandindo pelas terras conquistadas e dadas a eles por Deus, e o povoamento delas era imprescindível.

Quanto mais gente, mais território ocupado. Havia outro fator para que as famílias tivessem um número grande de filhos (e até mais de uma esposa): a mortalidade infantil era muito alta. Quanto mais filhos, maior a probabilidade de sobreviventes que perpetuariam o clã.
Como os direitos femininos não eram os mesmos dos homens (a posse de bens, por exemplo), o nascimento de um menino era motivo de festa. Era um varão a mais, que daria continuidade ao patrimônio e à prole. Uma mulher estéril era alvo de grande preconceito, e vítima de muita vergonha.

Jovens adultos

Nos tempos do Novo Testamento já havia indícios de desintegração de alguns clãs. As famílias já não eram tão numerosas quanto nos tempos de Abraão e Jacó, e algumas famílias corriam o risco de desaparecer, o que era muito grave para a sociedade da época. A diminuição das famílias refletiu na vida de suas crianças, já na época em que Jesus realizou seu ministério fisicamente, entre os seres humanos.

Uma pessoa era considerada criança até os 12 anos e, a partir daí, não era um adolescente, como hoje, mas um jovem adulto, com as responsabilidades concernentes. Antes dos 12, um menino ou menina eram considerados até mesmo uma categoria inferior, oficialmente incapaz de direitos e de decisões. Não tinham direito a posses. Deviam absoluto respeito ao pai e aos irmãos maiores de 12. Eram considerados posse do pai, que podia até mesmo escravizá-los (obviamente, havia pais que os respeitavam como pessoas e os amavam como filhos, e não os usavam como meros criados, ainda que os pequenos ajudassem nos afazeres).

As meninas recebiam a educação das mães, e permaneciam com elas até o casamento, quando saíam de casa para formar outro lar. Os meninos só ficavam com a mãe na primeira infância, para depois acompanharem o pai e os irmãos mais velhos no dia a dia, até mesmo aprendendo suas profissões, que normalmente seguiam.

A antiga população judaica não via as crianças exatamente como inocentes. Eram tidas como criaturas imprudentes, frágeis e tolas. Entretanto, alguns líderes as enxergavam como o futuro de Israel e mereciam muita atenção.

A partir dos 13 anos, os meninos já eram considerados maiores. Era realizada a cerimônia do bar-mitzvah (“filho da Lei”, no hebraico), um importante rito de passagem (ilustração ao lado), após o qual eram considerados membros da sociedade e deviam obedecer à Lei. Até hoje, os judeus realizam o bar-mitzvah para os meninos. Com o tempo e o avanço dos direitos da mulher, as meninas receberam o direito aobat-mitzvah, o correspondente feminino do rito – mas só a partir do início do século 20.

Naqueles tempos antigos, um adolescente, já considerado maior, casava-se geralmente entre os 16 e 22 anos, já trabalhando. Uma menina já era prometida como noiva aos 12. O pai arranjava o casamento da filha com algum rapaz do próprio clã, para evitar a dispersão dos bens. O pai podia impor o casamento, mas era comum em muitas famílias a vontade da menina ser respeitada, caso não quisesse contrair matrimônio com o escolhido.

“Deixem vir a mim as crianças”

Certa vez, Jesus pregava ao povo. Algumas mulheres levaram seus filhos para que o Messias as abençoasse. Como as crianças ainda eram vistas como inferiores em vários sentidos pela sociedade, alguns discípulos as afastavam do Mestre. Jesus os repreendeu, com uma de suas mais famosas lições:

“Mas Jesus chamou a si as crianças e disse: ‘Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas.

Digo-lhes a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança,
nunca entrará nele’.”
Lucas 18:16-17



Como tudo mudou após Cristo, e temos pleno acesso ao Pai por Seu sacrifício, a partir dali, para os cristãos, os pequenos passaram a ser acolhidos de uma forma bem mais digna. Obviamente, embora ainda existam as cerimônias de bar e bat-mitzvah, os judeus de hoje também querem bem às suas crianças desde o início de suas vidas, dando valor a elas independentemente da idade.

Protagonistas infantis

Embora a criança fosse tida como inferior nos tempos do Velho Testamento, alguns dos grandes personagens bíblicos entraram para seus registros ainda com bem pouca idade.

Sara era estéril até que Deus a tornou fértil, como prometera a Abraão. Nasceu Isaque, que veio a ser um dos grandes patriarcas de sua nação.

Moisés, filho de uma escrava, escapou do massacre de inocentes hebreus aplicado pelo faraó da época. Deus armou sua mãe e sua irmã de astúcia para que o cesto em que o pequeno seria lançado no rio Nilo flutuasse como um barquinho, e o bebê fosse encontrado por ninguém menos que a filha do rei, criado por ela como um verdadeiro filho e, posteriormente, o líder do povo liberto da escravidão rumo à Terra Prometida.

Davi era uma criança subestimada até mesmo por seus irmãos mais velhos. Ainda adolescente, o franzino menino matou o gigante filisteu Golias, e veio a ser um dos maiores monarcas da história.

O próprio Jesus Cristo protagonizou, quando de seu nascimento entre os homens, uma das passagens mais bonitas da Palavra Sagrada. Ainda menino, fez algo tido como ofensivo na época: entrou no Templo para discutir a Lei com os Doutores, as autoridades oficiais no assunto, até ser encontrado por Maria e José, que O haviam perdido durante uma viagem a Jerusalém (ilustração acima, à direita).



Já adulto, a partir do episódio em que acolheu as criancinhas, Jesus estabeleceu que todos são importantes perante Deus independentemente da idade, e individualmente especiais para Ele. Hoje, a educação das crianças quanto aos preceitos de Deus com a família começa bem cedo, fazendo-as parte ativa de uma vida plena com o Pai bem no início dela.

sábado, 20 de outubro de 2012

Costumes da Bíblia - A pesca



Atividade era muito valorizada nos tempos bíblicos, e bem presente na época de Jesus, com métodos utilizados até hoje





A pesca e o consumo de peixes aparece em vários pontos da Bíblia, inclusive em boa parte da vida terrena de Jesus. Além dos antigos hebreus em várias das terras em que habitaram, a atividade também era realizada por outros povos concernentes à Palavra Sagrada, como os egípcios e gregos (e por muitos outros que não constam nela, obviamente). Hoje, mesmo com o advento da tecnologia – sonares que localizam cardumes, por exemplo –, alguns métodos dos tempos bíblicos continuam a ser usados por pescadores de vários países, em água doce ou salgada.

O Mar da Galileia, na verdade um grande lago, hoje tem em sua volta cidades importantes e forte atividade agrária. Na era neotestamentária era diferente: grandes cidades entremeadas por pequenas aldeias, bem povoadas. Jesus encontrou entre os pescadores dali alguns de seus apóstolos, como Pedro e André, que com Tiago e João eram sócios de uma empresa de pesca aos moldes da época, segundo indícios históricos.No Novo Testamento, a pesca já era mais arrojada, bem além dos métodos rudimentares de antes. O Mar da Galileia era um dos maiores polos pesqueiros daqueles tempos, com vários e movimentados mercados de peixes frescos e salgados nas vizinhanças – o nome da cidade de Magdala, por exemplo, significa “salga de peixes”.

“E, andando junto do mar da Galileia, viu Simão, e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores.

E Jesus lhes disse: Vinde após mim, e eu farei que sejais pescadores de homens.

E, deixando logo as suas redes, o seguiram.

E, passando dali um pouco mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam no barco consertando as redes,

E logo os chamou. E eles, deixando o seu pai Zebedeu no barco com os jornaleiros, foram após ele.”
Marcos 1:16-20

Redes, anzóis e lanças

Dos métodos utilizados, alguns são citados na Bíblia. A pesca com linha e anzol no rio Nilo, no Egito, aparece em Isaías 19:8, além da feita com redes. Quem também fala em anzol é o próprio Jesus, em conversa com Pedro:

Mas, para que os não escandalizemos, vai ao mar, lança o anzol, tira o primeiro peixe que subir, e abrindo-lhe a boca, encontrarás um estáter; toma-o, e dá-o por mim e por ti.”
Mateus 17:27


A pesca com lança, utilizada até hoje em culturas com menos recursos tecnológicos, já era praticada pelos povos bíblicos (como na ilustração egípcia acima). Deus indagou a Jó sobre o modo de capturar o leviatã (termo usado na antiguidade para grandes e perigosas criaturas marinhas, reais ou míticas), e aludiu a dois métodos: anzol e arpão, além do gancho usado para pegar peixes pela boca ou pelas guelras (Jô 41:1-7). Conforme a pesca foi aperfeiçoada ao longo do tempo, dispositivos para lançar arpões foram desenvolvidos, como canhões e armas de mão, estas últimas mais utilizadas na pesca submarina.



Voltando à lança, era comum a prática da pesca noturna. Uma lanterna presa à proa ou à popa do barco (às vezes em ambas) produzia uma luz que atraía os peixes até a superfície, onde eles eram facilmente arpoados (como os indígenas norte-americanos representados na pintura acima).

As redes tinham várias formas, algumas utilizadas até hoje. A que conhecemos como tarrafa em algumas regiões do Brasil data daqueles tempos: de forma circular, com pesos nas bordas (antigamente, de pedra, e com o tempo, de chumbo). Ao ver o cardume, o pescador a lançava. Os pesos faziam com que a rede descesse e os peixes ficavam presos, enroscados. O dispositivo era puxado por uma corda atada ao meio do círculo. Ela pode ser lançada da margem (foto abaixo), ou com o pescador submerso até a cintura, e também pode ser jogada de píeres ou mesmo de barcos. Ao que tudo indica, Pedro e André estavam lançando esse tipo de rede da margem ou de bem perto dela, o que possibilitou que Jesus os chamasse e fosse ouvido (Marcos 1:16-17).



Redes costumam prender tudo o que está em seu caminho, não fazendo distinção de peixes. Essa separação era feita pelos pescadores, tal como acontece ainda hoje. Jesus usou essa seleção para ilustrar o fim dos tempos:

“Igualmente o reino dos céus é semelhante a uma rede lançada ao mar, e que apanha toda a qualidade de peixes.

E, estando cheia, a puxam para a praia; e, assentando-se, apanham para os cestos os bons; os ruins, porém, lançam fora.
Assim será na consumação dos séculos: virão os anjos, e separarão os maus de entre os justos,

E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes.”
Mateus 13:47-50


As redes conhecidas hoje como seine, ou de varredura, aparecem nos livros de Habacuque (1:15), usadas com a ajuda de barcos, ou em versões menores, de uso manual, feito por duas pessoas ou mais (foto acima). Nos tempos neotestamentários, elas tinham cerca de 3 metros de largura, com comprimento variável. Ficavam suspensas na água como uma grande cerca, flutuando com a ajuda de boias de cortiça na parte de cima, com pedras na parte de baixo, que as esticavam. Um barco fazia um círculo com a rede, cercando os peixes, e outro barco juntava-se à operação, ao qual se prendia a outra ponta da rede, e ambos a arrastavam por um tempo e depois a erguiam como uma grande bolsa. Hoje, há barcos mecanizados que fazem o trabalho sem a ajuda de outro veículo, com poderosos guindastes que erguem as redes.



As embarcações

Falando nos barcos, os dos tempos bíblicos não eram muito grandes. Recentemente, um barco da época de Jesus foi encontrado na lama do Mar da Galileia, e foi exposto em um museu no kibutz de Ginosar – ou Genezaré, o nome local do lago – (foto acima), assim como um modelo em tamanho natural da embarcação na íntegra.


Barcos bem parecidos com os daquela época ainda são utilizados por pescadores conservadores da Idade Contemoporânea (como o da foto acima, tirada por volta do início do século passado no Mar da Galileia), e outros seguem quase o mesmo desenho, embora adaptados com materiais e equipamentos mais modernos (como na foto abaixo, no porto de Jafa, Tel Aviv). Um modelo maior, para pescas de grande monta, foi utilizado por Jesus e seus apóstolos, quando o messias acalmou uma tempestade (como registrado em Marcos 4).



Conservação

O peixe que não era consumido fresco, destinava-se à salga. Em um tempo sem geladeiras, os peixes maiores eram abertos, tiravam-se as espinhas e vísceras, intensamente salgados, o que permitia que não se estragassem por anos, se necessário, para épocas de escassez de pescado.

 

Peixes salgados e abertos dessa forma ainda são encontrados hoje em dia, como vemos os bacalhaus no comércio. Alguns eram secos ao sol, dependendo do tamanho e espécie. Há indícios de que os antigos egípcios (mestres em salgar suas múmias) assim procediam para estocar o que pescavam no Nilo e no mar próximo à sua foz (como registrado no antigo desenho acima).

sábado, 13 de outubro de 2012

Costumes da Bíblia - A música



Instrumentos e canções estão presentes em vários trechos bíblicos, principalmente no livro de Salmos




Em vários trechos da Bíblia, a música está presente. Adoração e festejos ao som de instrumentos eram bastante frequentes. “Louvor”, em seu equivalente hebraico (hallel), deriva de uma palavra que significa “fazer barulho”. Daí vem o costume cristão de que louvar a Deus deve ser feito, em uma de suas muitas formas, em voz alta. Do grego psalmosvem “Salmos”, com o sentido de “canção acompanhada por instrumentos”, que dá nome ao livro do Velho Testamento citado até mesmo por Jesus algumas vezes. O título do mesmo livro em hebraico éTehillim, “canções de louvor”.

As bandas do Antigo Testamento eram compostas por músicos que improvisavam a partir de uma melodia básica. Era comum, também, que todos tocassem ao mesmo tempo, ao invés de buscar uma harmonia.

No Antigo Egito, o papel dos músicos era intenso. Não são raros os registros em desenhos de pessoas com seus instrumentos nas paredes das edificações egípcias, revelados pelos arqueólogos.
Davi chamou muita atenção por ser rei e um grande guerreiro, mas a música estava presente em sua vida quase diariamente, desde quando era um simples pastor. Ele era um exímio tocador de lira e harpa, arte que continuou a praticar quando já era monarca – como na ilustração acima, liderando a banda em desfile pelas ruas.

Instrumentos

A já citada lira era um instrumento pequeno e leve, com oito ou dez cordas, fácil de carregar. Sua “prima” maior era a harpa, que tinha de 10 a 20 cordas. Costumava ser muito usada no Templo de Salomão, nos cultos, tocada por levitas.

O tamborim era um instrumento de percussão bem simples, que consistia em uma pele animal fortemente esticada ao redor de um aro de madeira, o que lhe conferia um som potente mesmo a um pequeno toque das pontas dos dedos.

O címbalo também aparece nos textos bíblicos, e podemos vê-los até hoje em bandas: um par de pratos rasos de metal, que vibra quando batidos um contra o outro, com um som estridente. Posteriormente, foi adaptado como parte das modernas baterias.
O sistro era um bastão com um arco na ponta, com três ou quatro varas de metal que o atravessavam, com discos móveis nelas que retiniam conforme o instrumento era sacudido (ao lado, um afresco milenar em que a rainha egípcia Nefertiti tem um sistro na mão).

A flauta era facilmente carregada até mesmo por crianças, e muitas vezes era seu primeiro instrumento, feito de bambu, madeira ou osso. Não era tão utilizada para adoração, mas bem popular em reuniões sociais ou como distração – era bem usada por pastores, para aplacar a solidão nos pastos longínquos, além de ter um efeito calmante nas ovelhas.

Nos tempos do Tabernáculo, era usada uma trombeta para convocar o povo de Israel para algum pronunciamento ou para adoração. Podia ser feita de prata ou outros metais leves.

A trombeta de chifre de carneiro (também posteriormente feita em madeira ou metal) foi usada por Josué e seus homens ao redor de Jericó, até suas muralhas ruírem.

Outro instrumento de sopro com som potente era o shofar (foto abaixo), uma trombeta especial feita com chifres maiores de carneiro. Tinha dois sons distintos, que mudavam conforme o sopro, e era utilizado em cerimônias especiais e solenidades.



Os salmos

Uma das definições da palavra “salmo” nos dicionários modernos é a de que eram cânticos sagrados realizados pelos hebreus. Os belos versos que lemos hoje no extenso livro dos Salmos são letras dessas canções de louvor, geralmente acompanhadas por instrumentos de sopro ou cordas. A Davi é atribuída a autoria da maioria das composições, tanto de letra quanto de música.



Algumas versões bíblicas têm termos muitas vezes incompreendidos pela maioria no livro dos Salmos, geralmente entre colchetes ou parênteses, no início ou no final dos versos.

[Masquil de Davi para o músico-mor, quando Doegue, o edomeu, o anunciou a Saul, e lhe disse: Davi veio à casa de Abimeleque] Por que te glorias na malícia, ó homem poderoso? Pois a bondade de Deus permanece continuamente.
Salmos 52:1

“Masquil”, por exemplo, assim como “mictão” e “sigaiom”, se referem ao modo como a música deveria ser tocada e cantada.

“Reinos da terra, cantai a Deus, cantai louvores ao Senhor. (Selá.)”
Salmos 68:32

“Selá”, por sua vez, indicava uma pausa no cântico, enquanto os instrumentos continuavam a tocar. Nesse intervalo, tanto podia haver somente a ausência da letra quanto era possível entrar palavras recitadas (poemas ou um pequeno trecho de adoração ou de sermão).

As letras

Os salmos falam de vários assuntos ligados à relação diária do homem com o Senhor: glória, o senhorio de Deus, o perdão, o arrependimento, a alegria, as batalhas, o sofrimento e vários outros.
Há diferentes categorias de salmos. Os “cânticos de romagem” (Salmos 120 a 134) foram compostos para que peregrinos os cantassem durante suas viagens a Jerusalém. Os salmos de hallel (louvor), do 113 ao 118, eram cantados durante festas sagradas, como a de Páscoa e a dos Tabernáculos.

Às vezes, os salmos não parecem, para nós ocidentais, letras de canções ou poesia. Isso ocorre pelo fato de a poesia hebraica funcionar de um modo bem diferente do que conhecemos. Enquanto estamos mais acostumados ao padrão que usa rima e métrica, os versos dos hebreus utilizam mais os jogos de palavras, acrósticos (cada linha ou estrofe começa com a letra seguinte do alfabeto) e o paralelismo – uma ideia expressa em um verso é reformulada no seguinte, gerando uma repetição, um complemento e até mesmo um contraste.


Mas uma característica em comum entre a poesia hebraica e a nossa é o emprego da aliteração: a repetição de sons consonantais idênticos ou semelhantes em um verso ou em uma frase, especialmente as sílabas tônicas.

Para nós, embora a música faça parte do louvor em nossos dias, prevalece o sentido dos versos dos Salmos para adorarmos a Deus ou para entendermos melhor nossa relação com Ele.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Costumes da Bíblia - Os sacrifícios

"Animais inocentes eram mortos para que a pessoa tivesse consciência de seu pecado, até o sacrifício supremo de Jesus"
           

“Porque a vida da carne está no sangue;
pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas;
porquanto é o sangue que fará expiação pela alma.”

Levítico 17:11
 
Na antiguidade, várias religiões praticavam os sacrifícios aos seus deuses – inclusive sacrifícios humanos. No judaísmo antigo, tinham como objetivo levar o indivíduo a tomar consciência de seus pecados.

A pessoa se via diante de um altar em que um animal inocente era sacrificado e queimado em seu lugar. As mãos eram impostas sobre a cabeça do animal e sua garganta era cortada, em um simbolismo muito forte: o pecado sempre leva à morte.
O sacerdote, como intermediário entre o homem e Deus, colhia o sangue do animal em uma vasilha e o apresentava frente ao altar em nome do pecador (Levítico 1).

Deus proibiu o sacrifício humano (Levítico 20:1-5). Era comum que os devotos de falsos deuses sacrificassem até mesmo seus filhos àquelas entidades – tal como hoje ainda o fazem os adeptos de bruxaria, hediondamente.

O sacrifício no Monte Moriá que Deus ordenou que Abraão fizesse, de seu filho Isaque, foi apenas um meio para mostrar ao ancião a idolatria que ele praticava sem o saber. Tanto, que não permitiu que ele o consumasse (Gênesis 22).

Tipos

Levítico descreve os diferentes tipos de sacrifício:

- Oferta queimada – Sacrifícios pacíficos, como expressão de adoração a Deus, como Noé havia feito em Gênesis, em honra ao Senhor, quando as águas do dilúvio baixaram (Gênesis 4:4-5 e 8:20-21, Levítico 1); sacrifícios pelos pecados não intencionais contra Deus (Levítico 4) e os realizados para expiar os pecados não intencionais – pelo menos na teoria – contra outras pessoas (Levítico 5).

- Manjares – Pratos muito benfeitos, mesmo que simples, como ações de graças pela provisão de Deus (Levítico 2).

Assim se dava a expiação, a remissão do pecado, e só depois dela o indivíduo poderia se aproximar novamente de Deus.

Sacrifício supremo: Jesus

Os pecados intencionais não eram contemplados pela Lei. No Novo testamento, esse tipo de pecado só pôde ser perdoado pelo sacrifício supremo: o de Jesus.
“No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.”
João 1:29
Assim como os animais eram inocentes, mortos no lugar do pecador, aconteceu a Jesus – ao contrário dos bichos, ofereceu-se por amor ao sacrifício pelos pecados de toda a humanidade.
“Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.

Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.

O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos,
para servir de testemunho a seu tempo.”
1 Timóteo 2:4-6

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Costumes da Bíblia - Saudações

"Formas distintas de cumprimentos eram usadas no Velho e no Novo Testamento"
           

Nos tempos bíblicos, três tipos de saudação eram mais usados no cotidiano, de acordo com a intimidade com a pessoa cumprimentada.

Um simples gesto com a mão, sem contato físico, era o mais comum. Podia ou não ser acompanhado de palavras: “saudações”, “alegre-se” ou “a paz esteja convosco”, por exemplo.
“Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco; assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós”
João 20:21
Quando Jesus ordenou que 70 homens saíssem a anunciar os preceitos de Deus, orientou-os quanto à saudação quando chegassem à casa de uma família:
“E, em qualquer casa onde entrardes, dizei primeiro: Paz seja nesta casa.”
Lucas 10:5
Depois, vinha o beijo formal, geralmente para amigos ou convidados. As mãos eram postas nos ombros da outra pessoa, ambas se abraçavam e davam um beijo na face direita e outro na esquerda, nessa ordem. Assim Samuel beijou Saul quando o ungiu (1 Samuel 10:1). O fariseu Simão não cumprimentou Jesus dessa forma quando o recebeu em sua casa (Lucas 7:45).
Paulo falou desse beijo em Romanos 16:16):
“Saudai-vos uns aos outros com santo ósculo. As igrejas de Cristo vos saúdam.”
Romanos 16:16
Havia um beijo que pedia mais intimidade, demonstração de amizade mais profunda, ou, no caso de ser entre sexos diferentes, interesse amoroso (Gênesis 29:11).

Foi esse o beijo que Judas traiçoeiramente deu em Jesus, para mostrar aos soldados romanos, como combinado, quem era o Messias, entregando-o.
“E, estando ele ainda a falar, surgiu uma multidão; e um dos doze, que se chamava Judas, ia adiante dela, e chegou-se a Jesus para o beijar.

E Jesus lhe disse: Judas, com um beijo trais
o Filho do homem?”
Lucas 22:47-48
Havia a reverência, mais formal, feita a um convidado ilustre ou a alguém de destaque na sociedade, como uma autoridade. A pessoa que cumprimentava podia baixar a cabeça, respeitosamente, dobrar a cintura para a frente ou, ainda, prostrar-se. Tal atitude também era tomada em relação a alguns emissários de Deus:
“Depois apareceu-lhe o SENHOR nos carvalhais de Manre, estando ele assentado à porta da tenda, no calor do dia.

E levantou os seus olhos, e olhou, e eis três homens em pé junto a ele. E vendo-os, correu da porta da tenda ao seu encontro e inclinou-se à terra,

E disse: Meu Senhor, se agora tenho achado graça aos teus olhos, rogo-te que não passes de teu servo.”
Gênesis 18:1-3
Entretanto, tal cumprimento podia ser confundido com adoração. Alguns não o faziam, pois acreditavam que só deveriam se curvar desta forma para Deus. Por isso, Pedro orientou o centurião Cornélio a não fazê-lo, quando entrou na casa do romano:
“E aconteceu que, entrando Pedro, saiu Cornélio a recebê-lo, e, prostrando-se a seus pés o adorou.

Mas Pedro o levantou, dizendo: Levanta-te, que eu também sou homem.”
Atos 10:25-26
Outros prostravam-se só por acharem que era sinal de profundo respeito, sem intenção de adoração.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Costumes da Bíblia - Os vários usos do azeite

"O óleo de oliva é citado em várias situações bíblicas, com ampla importância física e espiritual"
           

Não são poucas as passagens da Bíblia, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, em que o azeite de oliva aparece com um importante significado. Hoje mais popular na alimentação, também teve ao longo da história um forte sentido espiritual, além de outros usos, como em medicamentos e cosméticos.

A oliveira, cujo fruto dá origem ao tipo de azeite mais usado no mundo (existem os feitos com outros vegetais), surgiu na região que hoje compreende a Síria – não por acaso, segundo a Bíblia, onde já se situou o famoso Jardim do Éden, primeira morada do homem. Também já foram achadas oliveiras fossilizadas na área do atual Irã.

Há indícios de que o óleo extraído das azeitonas já era usado há 6 mil anos. Os povos da Mesopotâmia o usavam como protetor contra o frio. Untavam a pele com o azeite, que “pega emprestado” o calor do ambiente e não deixa o corpo perder o seu com facilidade. Guerreiros da época também o passavam para ressaltar a musculatura, a fim de intimidar os adversários.

O óleo extraído das azeitonas foi usado por milênios como combustível para lamparinas, fornecendo iluminação noturna nos imóveis, acampamentos ou com intuito cerimonial, como nas menorás (candelabros judaicos de sete lâmpadas, como os que eram usados no Tabernáculo e no Templo de Salomão).


Os mercadores de Tiro eram importantes comerciantes de azeite. Vendiam-no até mesmo ao Egito, já que as azeitonas egípcias não eram de boa qualidade. Israel também produzia muito azeite, mas também o comprava de Tiro. Relatos da comercialização do produto aparecem em livros bíblicos como 2 Crônicas, 1 Reis, Isaías, Ezequiel e Oseias.

Os fenícios e gregos espalharam o uso do azeite pelas outras regiões mediterrâneas (até hoje o óleo grego figura entre os melhores do mundo). Médicos da Grécia já o utilizavam em seus unguentos no século 7 antes de Cristo (a.C.), assim como os romanos e os próprios israelitas, além dos mesopotâmicos e egípcios, como atestam vários achados arqueológicos.


Usos

Além da utilização em temperos e para fritar alimentos, e também para conservá-los, o azeite era matéria-prima de medicamentos de uso tópico (como cremes e pomadas), de cosméticos (cremes e óleos para cabelos e pele) ou ainda misturado a essências perfumadas para uso no corpo ou em ambientes. Misturado a especiarias e flores, com ele era feito uma espécie de incenso.

O sentido espiritual do azeite é frequente até os dias atuais para povos como os judeus e os cristãos. O óleo simboliza a presença do Senhor, também representando o Espírito Santo. Com ele, eram ungidos reis e sacerdotes, conforme a vontade de Deus (como mostrado no vídeo abaixo, da minissérie “Rei Davi”, quando o profeta Samuel ungiu o jovem filho de Jessé).


Jacó, em suas experiências com Deus em Betel, por duas vezes ergueu altares de pedra, sobre os quais deitou azeite (Gênesis 28:18 / 35:14).

Nos sacrifícios diários, também era usado o azeite, sempre de ótima qualidade (como em Êxodo 29:40), assim como na purificação dos leprosos (Levítico 14:10-18). Manjares para ofertas a Deus eram comumente usados sem fermento e com azeite. A ausência do fermento significa a abstinência do pecado, enquanto o azeite simboliza a presença do Senhor. Quando as ofertas eram feitas para a expiação de pecados (Levítico 5:11) ou por causa de ciúmes (Números 5:15), entretanto, não se usava o azeite.

Também era comum os judeus untarem levemente o corpo com azeite após o banho (tem um eficiente efeito hidratante e suavizante da pele) ou antes de importantes festas. Mas em ocasiões tristes como a de luto, ele não devia ser usado – o óleo simbolizava, entre muitas coisas, a alegria.



Em uma das famosas parábolas contadas por Jesus, um samaritano encontra um judeu vitimado por agressão (ilustração acima) e, piedosamente, trata suas feridas com vinho (desinfecção, por causa do álcool) e azeite (com propriedades cicatrizantes). Este uso terapêutico também aparece em Isaías 1:6 (amolecimento de chagas para tratamento), além da cura espiritual (Marcos 6:13 e Tiago 5:14).

Falando em Jesus, Ele próprio, às vésperas de Sua prisão e execução, passou por momentos de oração no Jardim das Oliveiras (foto abaixo), no Getsêmani (“lagar de azeite”, do hebraico – “lagar” é como se designa a moenda que extrai o óleo das azeitonas, ou o local onde ela fica).


Graças aos antigos mercadores do Mediterrâneo, o uso do azeite se propagou para outras terras, que também passaram a produzi-lo. Hoje, o óleo é usado na culinária, cosmética e medicina de várias culturas, inclusive no Brasil, onde chegou pelas mãos dos colonizadores portugueses e espanhóis, cujos países hoje produzem azeite em larga escala, exportado para várias regiões do planeta. Nosso país é o sétimo maior importador mundial de azeite e o segundo de azeitonas, produtos presentes maciçamente em nossa culinária diária. Embora não tenhamos tradição no plantio de oliveiras, pesquisas já começam a dar frutos em Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e logo poderemos consumir muito azeite de olivas brasileiras, cuja cultura se propagará para outros estados de clima propício.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Costumes da Bíblia - A hospitalidade

"A arte de receber até mesmo estranhos era um costume bastante respeitado pelos povos do Antigo Testamento"
           
Um importante costume observado na sociedade israelita, a hospitalidade pode ser considerada uma das pedras angulares daquela cultura. Embora não seja um costume unicamente de Israel, em nenhuma outra cultura há tantos registros históricos sobre receber as pessoas em casa. E muitos desses registros estão na Bíblia, com uma ampla variedade de modos e circunstâncias, entre a recepção de parentes, conhecidos e até mesmo estranhos.

Já no início, na história dos grandes patriarcas bíblicos. Há vários exemplos de como a hospitalidade era realizada. Abraão, por exemplo, recebeu três viajantes em um dia quente (ilustração ao lado). O ancião os convidou a uma pausa na fresca sombra de uma árvore próxima à sua tenda. Ofereceu-lhes água para lavar a poeira de seus cansados pés e lhes serviu uma restaurante refeição feita especialmente para eles. Os três eram anjos enviados por Deus, e comunicaram ao velho senhor que ele e sua esposa, Sara, teriam um filho de seu próprio sangue (Gênesis 18:1-10).

O mesmo tratamento a viajantes foi providenciado mais tarde pelo sobrinho de Abraão, Ló, que convidou dois estranhos viajantes para repouso em seu lar, em Sodoma. Ló também lhes ofereceu água para a limpeza dos pés e serviu-lhes revigorantes pratos. A refeição foi interrompida pelos sodomitas, que queriam invadir a casa e abusar dos visitantes, mas foram defendidos pelo anfitrião. Subjugaram Ló e iam invadir a casa quando os dois visitantes, anjos, defenderam quem os acolheu e o orientou a saírem da cidade, que seria destruída por Deus (ilustração abaixo) por causa do intenso pecado que nela reinava (Gênesis 19: 1-16).

Essa necessidade de proteger os hóspedes a todo custo também é demonstrada na história da concubina de Gibeá (Juízes 19). Ao ser recebido na casa de um ancião de Gibeá, os cidadãos daquele lugar quiseram entrar na casa e abusar dos viajantes que ali pousavam: um homem, sua concubina e um servo. Estupraram a moça por toda a noite, até a morte. Era dever dos anfitriões sacrificar até sua própria família e eles mesmos para proteger os hóspedes, protegidos a todo custo. A quebra do costume enfureceu de tal forma os israelitas, que estes empreenderam uma batalha contra Gibeá, cidade de benjaminitas. A fúria pela quebra da tradição foi tão grande, que após o embate foi feito um voto: nenhum israelita poderia mais se casar com alguém da tribo de Benjamin (Juízes 21).

A hospitalidade novamente aparece com destaque quando Gideão é chamado à liderança. Estando o jovem malhando o trigo colhido para fugir à violência dos midianitas que perturbavam Israel e maltratavam o povo, percebeu um viajante sentado sob um frondoso carvalho. Também era um anjo, convocando Gideão a lutar contra os midianitas. O rapaz também lhe ofereceu uma refeição feita em sua honra, que foi consumida pelo fogo em cima de uma rocha, para provar que era mesmo um anjo de Deus (como narrado em Juízes 6:11-21).

A punição para quem ferisse o costume da hospitalidade era sempre severa. Em 1 Samuel 25, Davi e seus homens, acampando próximo ao Carmelo, hospedaram pastores do rico Nabal para todo o grupo. Quando Davi mandou que alguns de seus moços pedissem pousada a Nabal, este, que era duro de coração, simplesmente negou. Davi soube e resolveu ir à propriedade de Nabal matar a todos que ali se encontrassem, quando a esposa do homem vil resolveu interceder, pedindo perdão a Davi e fornecendo-lhe alimento. O futuro rei a perdoou e preservou sua família. Nabal morreu naturalmente, 10 dias depois, e Davi tomou a sensata viúva, Abigail, por esposa.

Até mesmo os antigos canaanitas (habitantes originais de Israel) praticavam a hospitalidade com muito respeito, como mostra a história de Raabe. A mulher, uma prostituta de Jericó, recebeu dois viajantes, que vinham a ser espiões israelitas enviados por Josué. Os homens do lugar foram ter aos espiões, mas a anfitriã os protegeu, dizendo que já haviam partido. Em troca disso, os espiões garantiram que, ao tomarem Jericó, poupariam a moça e sua família (Josué 2).

A total proteção dos hóspedes também foi a base do encontro entre Jael e Sísera, embora o resultado não tenha sido feliz para o viajante. A primeira recebeu o segundo, que fugia após ser vencido pelos israelitas, em sua tenda, oferecendo-lhe pouso e alimento. Jael, esposa de Héber, teve de oferecer a pousada pedida pelo guerreiro, já que não podia, pelo costume, negar. Ela matou o inimigo, cravando-lhe uma estaca de tenda no crânio. Embora a mulher tenha ferido o protocolo da hospitalidade, eram tempos de guerra, e o ato foi encarado como heroísmo pelos israelitas (Juízes 4:17-22 e 5:24-27).
Em 1 Reis 17, a hospitalidade oferecida por um não-israelita novamente entra em cena. Elias pediu pousada e alimento a uma viúva muito pobre, em tempos de escassez. O Senhor providenciou que nunca faltasse alimento na casa da mulher. Depois de um tempo, o filho da viúva faleceu, e Elias orou a Deus para que revivesse o menino, no que foi atendido (ilustração acima).

Quando Israel já era um reino estabelecido, a hospitalidade permanecia entre os costumes do povo. Um bom exemplo é o da sunamita que hospedava Eliseu sempre que ele passava por sua casa, a ponto de mandar montar um quarto especialmente para ele. Em retribuição por sempre ser tão bem recebido, o profeta orou para que Deus desse a ela um filho, o que ela desejava muito, mas não conseguia por causa da avançada idade de seu marido. Ela teve um menino, que mais tarde ficou doente, vindo a falecer. Eliseu orou pelo garoto, que voltou à vida (2 Reis 4:1-37). O próprio Davi volta a demonstrar hospitalidade quando recebeu em sua casa Mefibosete (foto abaixo, da minissérie "Rei Davi"), filho de Jônatas, após a morte de seu pai e de Saul (2 Samuel 9).



Um dos grandes exemplos da arte de hospedar também é evidente quando o rei Ezequias convidou líderes e súditos de Israel e Judá para celebrar a Páscoa em Jerusalém. Quase todos os domicílios receberam hóspedes, como antes era comum à festa, reforçando o costume (2 Crônicas 30).